Dave Maclean, muito além do falso gringo

Pioneiro do rock e do pop nacional, músico José Carlos Gonzales, conhecido como Dave Maclean, tem 60 anos de carreira e muitas histórias para contar

Histórias do pop brasileiro

A série “História secreta do pop brasileiro”, de André Barcinski, não tem nada de inocente. Centrando fogo no jogo baixo das gravadoras, a série reconstitui um momento fundamental da indústria cultural no Brasil, recuperando nomes que hoje não passam de ilustres desconhecidos. Pioneira e corajosa, ela propõe nada menos que uma leitura do pop nacional a partir do escândalo e do obsceno.

Um dos muitos resgatados ao longo dos episódios foi Dave Maclean, apresentado como parte da onda dos “falsos gringos” fabricados pela Som Livre. Acontece que José Carlos Gonzales teve uma longa trajetória antes e outra igualmente grande depois de se tornar Dave Maclean, o que deveria lhe garantir um lugar de destaque na história da cultura de massas no país. Portanto, mesmo que a série de Barcinski continue imprescindível, é preciso dar um passo para trás antes de abraçar sua tese.

Carlão, o rock e o mercado fonográfico

Nascido em 1943 na região do Ipiranga, São Paulo, José Carlos Gonzales começou a tocar violão ainda criança e, em 1963, formou o grupo de rock instrumental The Snakes. Depois mudaram de nome para Os Botões, aderiram ao repertório cantado e, com a ajuda do empresário João Simoni, tocaram em quase todos os bailinhos de São Paulo e do ABC paulista.

Ainda nos anos 1960, o cantor Dorival Marcos, de São Caetano do Sul, apresentou os músicos à gravadora RCA que decidiu contratá-los. Em 1969 eles mudam o nome para The Buttons e realizam dois registros, ambos em inglês: um compacto 7” e um LP.

As doze faixas do LP vão da estética hippie a um quase hard rock, com muito de Beatles, groove, funk, psicodelia e versões de clássicos dos anos 1930-40: “Moonlight Serenade”, de Gershwin, e “Whispering”, de Tommy Dorsey. Melodias leves intercaladas por guitarras distorcidas, arranjos vocais e muitos efeitos. No quesito vocal, além da experiência dos bailes, o grupo ainda contava com o guitarrista, baixista, cantor e corista Carlos Alberto de Souza, o “Carlinhos”, que depois ficou conhecido como Paul Denver.

Por maiores que fossem os elogios, comercialmente o disco não empolgou. A divulgação quase não existiu, o grupo foi “esquecido” pela gravadora e a frustração começou a crescer. A maior repercussão veio com a faixa “Happy Mary”, posteriormente regravada pelo grupo inglês Tears e lançada na coletânea Jet Music n. 2, de 1972.

A fabricação do ídolo

Ainda em 1973, um amigo do grupo falou sobre a Rede Globo querer contratar artistas para gravar baladas românticas para suas novelas. Os Buttons se candidataram, conseguiram um contrato com a Top Tape, foram ao Rio de Janeiro e, mediante cachê, gravaram um full length. Aí teve início uma trajetória clássica de ascensão e queda, o que deveria ter ficado claro desde que a gravadora decidiu mudar o nome do grupo para Dave Maclean sem consultar seus integrantes.

Em troca, uma das músicas do disco, “Me and You”, emplacou como tema da novela Os Ossos do Barão, fazendo um estrondoso sucesso. O grupo rompe com o empresário João Simoni, se isola da rede de shows no ABC e começa a definhar. Em menos de um ano estavam próximos da dissolução. Passam por uma reformulação e, já em 1974, lançam um novo compacto com “We Said Goodbye” e mais dois LPs, todos pela RCA. Então o sucesso se consolida.

Nos anos seguintes gravou aproximadamente dez discos, tocou por todo o Brasil, na TV dos EUA, colocou quatro músicas entre as dez mais tocadas no México, se apresentou no Fantástico, no Globo de Ouro e no programa do Chacrinha. Mas antes da década acabar a moda já havia passado, e Maclean precisava se repensar.

O Country rock e bluegrass na vida de Dave Maclean

Como tentativa de se reinventar, em 1980, Maclean criou o grupo Dollar Company (que depois se tornou Trio Bala de Prata), inaugurando um circuito de apresentações em bares e pubs como Bang Bang e Victoria Pub. Quando o entrevistei em 31 de maio de 2021, Maclean fez questão de destacar um acontecimento que ele considera especial:

“O Victoria Pub era o primeiro nome em bar aqui em São Paulo. Lá iam todos os artistas, eu conheci o pessoal do Queen lá, conheci o Brian May, dei a mão pra ele lá no Victoria Pub. E eles foram dois dias lá, sexta e sábado, no primeiro show que eles fizeram aqui no Morumbi.

Então eles saiam de lá do show e iam assistir a gente. No primeiro dia eu fiquei um tempão conversando com o Brian May e mais ainda com o John Deacon. No final ele falou: ‘Amanhã a gente vai voltar aqui só pra assistir vocês’. E voltaram mesmo!”

Para quem estava se readequando ao anonimato, este foi um início estimulante. O trio começou com dois violões e bongô, depois adotou banjo de cinco cordas, gaita, violino, contrabaixo e bateria eletrônica, para fazer variações de country-rock, pop-country e bluegrass. Tocaram de domingo a domingo por dois anos e meio, até que passaram dos bares para as feiras agropecuárias, onde chegaram a ter a dupla Chitãozinho & Xororó na abertura de suas apresentações. Esse período se manteve por 15 anos, até que Maclean resolveu se desligar dos demais, em meados dos anos 1990, montando o discreto Montana Country.

Em 2000, ciente de que seria impossível manter a agenda depois de quase 40 anos em atividade, Maclean preparou sua transição. Não aposentou as palhetas, mas decidiu que era hora de reformular sua rotina no bairro do Rudge Ramos (São Bernardo), onde mora desde 1972. Foi quando fundou a Black Bug Acessórios para Instrumentos Musicais, recuperando uma velha paixão dos tempos de juventude, quando trabalhou na fábrica de guitarras Snake, do ex-baixista dos Botões, Alaor.

“Sempre fui músico e gostei de eletrônica. Hoje em dia eu uso a música como hobby e a eletrônica como profissão”. Um hobby de alto padrão que lhe permitiu participar ativamente do revival do movimento na primeira década do novo século.

Dave Maclean na década de 1970 – Foto: Acervo Pessoal

Hits Brasil e as perguntas que ficam

Por mais que não tenha sido a intenção, ao centrar sua narrativa nos “clones”, “falsos gringos” e “discos fantasmas”, Barcinski provocou um apagamento, não só das tendências que existiam antes, mas também das que vieram depois. Por não problematizar o efeito homogeneizante desse processo de monopolização cultural, sua versão acabou naturalizando os acontecimentos.

No caso específico dos falsos gringos, penso que o termo “Hits Brasil” é mais generoso, designando melhor esses criadores do pop brasileiro. Pela primeira vez artistas nacionais concebiam suas músicas em inglês e com uma sonoridade “estrangeira”, parecendo mais com artistas internacionais do que com os músicos da MPB. Eles estavam abrindo um caminho que seria continuado (e subvertido) na década seguinte por grupos como Karisma, Sepultura, Pin Ups e tantos outros.

Essa novidade desnorteou a mente provinciana dos tecnocratas nacionais da época, ao ponto de optarem pelo curto prazo, apresentando aqueles artistas como “internacionais”. Na melhor das hipóteses, eles pensavam que o público só veria beleza naquelas canções se elas fossem creditadas a artistas estrangeiros: uma mistura insólita entre vira-latismo, miopia e ignorância cultural.

Barcinski mostrou isso muito bem, mas quando a adrenalina abaixa começamos a nos perguntar: será que nem um desses artistas poderia ser lembrado de outra maneira? Será que nem um deles merecia uma etiqueta melhor que a de falsificador? Será que não estamos nos fixando demais nas fantasias fetichistas dos comerciantes de música e naturalizando a versão apresentada por eles?

Por mais que as respostas divirjam, uma coisa é certa: a trajetória artística de Dave Maclean não cabe no rótulo redutor de “falso gringo”.

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